Os povos indígenas amazônicos, tradicionalmente, possuem uma relação de equilíbrio com o meio em que habitam, consumindo somente o que é necessário para seu auto-consumo, sem causar dano ao ambiente. O povo Ashaninka sempre cuidou das aguas, animais, plantas  e todas a vidas da natureza, pela importância que ela tem em nossas vidas. Desde os anos 80, que esta se tornando mais conhecido o trabalho que estamos realizando aqui na Apiwtxa, de uso sustentável que estamos fazendo, dos recursos naturais e na proteção ambiental de nossa terra, buscando estimular, a partir de iniciativas-modelo, as populações do entorno. Nossas ações de gestão territorial e ambiental permitem a manutenção dos serviços ambientais, como o ar puro, a água limpa, a fertilidade do solo, a diversidade genética e o controle do clima.  Este trabalho de caráter socioambiental é realizado com base em nosso conhecimento tradicional, sendo por vezes combinado com técnicas modernas de proteção e manejo, contando com o apoio de parceiros.

A Apiwtxa vem se tornando uma referência mundial nas questões sóciopolíticas e ambientais e tem compartilhado sua experiência e credibilidade com diversos públicos, impactando o debate em prol de um desenvolvimento sócio-econômico sustentável e responsável.

Estamos todos interligados, vivemos todos no mesmo planeta e testemunhando a escassez cada vez maior dos recursos, dos quais dependemos para sobreviver. A busca de soluções sustentáveis e criativas para mantermos os serviços ecossistêmicos essenciais à vida deve ser uma tarefa de todos.

Informações do Projeto

Nome Alto Juruá

Categoria  Agrofloresta, Organização Comunitária, Proteção Territorial, Sementes Nativas, Todos

 

Com o intuito de implantar um projeto para promover o manejo e a produção agroflorestal em comunidades tradicionais e indígenas no município de Marechal Thaumaturgo/AC, a comunidade APIWTXA firmou, em abril de 2015, contrato com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)/Fundo Amazônia.O projeto, com duração de três anos, oferece alternativas econômicas sustentáveis ao desmatamento, apoia iniciativas de monitoramento e controle do território e ajuda a fortalecer as organizações comunitárias locais.

O Projeto Alto Juruá é a primeira parceria firmada diretamente entre o BNDES e uma associação indígena, tendo sido concebido e apresentado pela APIWTXA, sem intermediação do setor público ou de ONGs. Ele beneficia cerca de 720 indígenas que habitam a nossa Terra Indígena no Rio Amônia, mais 600 indígenas da Terra Indígena Kaxinawá-Ashaninka do Rio Breu e 50 comunidades da Reserva Extrativista do Alto Juruá.
Os três principais eixos do projeto são:

assessoramento, capacitação e implantação de sistemas agroflorestais;
apoio às comunidades indígenas e tradicionais do Alto Juruá para gestão territorial e ambiental;
desenvolvimento institucional das organizações comunitárias.

Dentre as atividades do projeto estão a realização de cursos de formação na área de gestão territorial e ambiental e de gestão de projetos, a construção de bases de vigilância e de estrutura para a produção e comercialização de polpa de frutas e intercâmbios entre as comunidades Ashaninka da fronteira Brasil-Peru.

Informações do Projeto

Nome Monitoramento Territorial

Categoria  Proteção Territorial, Todos

 

Em parceria com a universidade inglesa University College London (UCL) e a Comissão Pró-Índio do Acre (CPI/AC), demos início em janeiro de 2015 ao “Projeto de Monitoramento Territorial com Uso de Tecnologia Digital” que nos ajudará a aperfeiçoar as estratégias de proteção de nosso território. Para isso, nossa comunidade está sendo treinada pelo grupo de pesquisa Ciência Cidadã Extrema (ExCiteS) da University College London no uso de um aplicativo de proteção territorial, instalado em celulares. Através deste aplicativo podemos monitorar invasões em nosso território que causam o uso indevido dos recursos naturais, como a caça, pesca e retirada ilegal de madeira.

O grupo de pesquisa ExCiteS trabalha com uma metodologia participativa inovadora e com o desenvolvimento de um programa de computador adaptado à realidade dos povos da floresta. Através desta parceria, nós Ashaninka, construímos nosso próprio aplicativo de monitoramento, com categorias e ícones desenhados por nós mesmos para identificar invasões em nosso território. Também estamos sendo treinados no uso de celulares e na transferência de informações dos aparelhos para o computador e para a Internet.

As informações registradas através do aplicativo podem ser encaminhadas facilmente às autoridades por meio da Internet, o que qualifica o nosso esforço na proteção do nosso território e de nossa comunidade.

Informações do Projeto

Nome PUR Projet

Categoria  Agrofloresta, Todos

 

O Pur Projet (http://purprojet.com) é um coletivo de estruturas associadas que auxilia empresas na incorporação de questões climáticas às suas políticas de trabalho e responsabilidade social e ambiental. O Pur Projet desenvolve projetos socioambientais a fins de recuperar, revitalizar e proteger o meio ambiente, em parceria com comunidades menos favorecidas e cooperativas de pequenos produtores. Foi em 2013, após ter conhecido nossos trabalhos de reflorestamento, que o Pur Projet nos ofereceu apoio para podermos ampliar nossos trabalhos. Foi assim que passamos a fazer parte do projeto.

O projeto “Povos da Floresta” do Pur Projet e da Associação Apiwtxa deseja recuperar áreas de floresta degradadas através do plantio de árvores frutíferas, promovendo a autossuficiência de comunidades que vivem na floresta e o conhecimento agroflorestal dos povos indígenas.

Junto à nossa comunidade e da Associação dos Jovens Guerreiros da Floresta, que foi criada com o nosso apoio, o Pur Projet e a Associação Apiwtxa desejam plantar 90 mil árvores nativas frutíferas e de madeira de lei das mais diversas espécies. O plantio está em andamento desde 2014 e está sendo realizado tanto em nossa terra indígena no rio Amônia, como no Centro Yorenka Ãtame e no projeto Raio do Sol em Marechal Thaumaturgo, pertencendo este último à Associação Jovens Guerreiros da Floresta e estando localizado no Assentamento do Incra ao lado da sede do município de Marechal Thaumaturgo.

A prioridade deste projeto está na recuperação acompanhada de áreas degradadas, com o intuito de proteger tanto a biodiversidade como a nossa cultura Ashaninka, que depende fortemente da floresta para sobreviver. Se trata de um projeto de recuperação ambiental para fortalecer a nossa cultura e a nossa comunidade, por meio de atividades de conservação florestal.

Este trabalho em conjunto com o Pur Projet contribuirá em breve com a produção de polpas de frutas nativas que está em curso através da construção de uma agroindústria nas instalações do Centro Yorenka Ãtame em Marechal Thaumaturgo. Ambos os projetos ajudarão a fortalecer economicamente comunidades indígenas e não indígenas no município de Marechal Thaumaturgo.

Informações do Projeto

Nome Sementes Florestais Nativas

Categoria  Sementes Nativas, Todos

 

Por meio do projeto “Fortalecendo o Manejo, Coleta e Comercialização de Sementes Florestais Nativas”, a nossa comunidade está fortalecendo as atividades de coleta e comercialização de sementes, o trabalho de recuperação de áreas degradadas, o manejo florestal e a produção de mudas de espécies nativas da Amazônia. Com o apoio do Governo do Estado do Acre, queremos ampliar a capacidade de produção de mudas e gerar renda para as famílias, tanto de nossa comunidade como do entorno de nossa terra, por meio da comercialização das mudas e sementes.

No momento, estamos adequando essas práticas às exigências da legislação. Para isso, adotamos modelos eficientes e sustentáveis de produção que viabilizam a comercialização. Importante também está sendo ampliar as experiências interculturais de educação agroflorestal para outras comunidades indígenas, comunidades tradicionais e demais interessados no município de Marechal Thaumaturgo. Desse modo, intensificamos o trabalho educativo em práticas agroecológicas realizado no Centro Yorenka Ãtame com estudantes de escolas públicas e com produtores agroextrativistas.

A demanda crescente por recuperação florestal de áreas degradadas e a produção de mudas de espécies nativas florestais apontam a importância deste projeto. Este trabalho acentua a seriedade de nossas ações na proteção do meio ambiente e na valorização do desenvolvimento sustentável da região do Alto Juruá.

Em nossa comunidade e entorno, o viveiro produz anualmente em torno de 30.000 mudas de várias espécies, tanto florestais como frutíferas, tais como: mogno, cedro, cumaru, bálsamo, amarelinho, biorana, maçaranduba, gitó, patoá, abacaba, açaí, graviola, cupuaçu, pupunha, urvalha, laranja, limão-cravo, ingá, jambo, manga, etc.

As sementes têm as mais variadas utilidades: artesanatos; plantios diretos; produção de mudas florestais para recuperação de áreas degradadas e/ou alteradas, paisagismo, florestas de produção, de energia, entre outras. A qualidade das sementes e mudas ajuda a garantir o sucesso dos reflorestamentos, sejam quais forem os seus objetivos.

Informações do Projeto

Nome Piscicultura

Categoria:  Agrofloresta, Manejo de Fauna, Todos

 

Financiado pela Fundação Banco do Brasil, o projeto “Fortalecendo Experiências Socioprodutivas Sustentáveis no Alto Juruá, Acre (piscicultura associada a sistemas agroflorestais)” está consolidando na região do Alto Juruá, fronteira Brasil-Peru, o desenvolvimento sociocultural focado na ideia da “Floresta em Pé”.

Além de apoiar práticas socioprodutivas sustentáveis entre as populações indígenas e não indígenas, o projeto valoriza as culturas locais, o diálogo intercultural e a gestão dos territórios e da agrobiodiversidade. A piscicultura associada a sistemas agroflorestais é o foco principal de todo o trabalho.

As capacitações realizadas dentro deste projeto ajudam a atender à demanda das comunidades por assistência técnica, escassa na região. O projeto possibilita a qualificação técnica e a habilitação metodológica dos grupos participantes, contribuindo para a capacitação de agentes locais e a redução da dependência de apoio externo, o que estimula a população local a levá-lo adiante de forma autônoma.

Informações do Projeto

Nome Beneficiamento de Polpas de Frutas

Categoria:  Agrofloresta, Manejo de Fauna, Todos

 

Com o objetivo de fortalecer a autonomia financeira local e promover o desenvolvimento sustentável da região, a nossa comunidade, com o apoio do Governo do Acre e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), deu início ao projeto “Beneficiamento de frutas regionais através da implantação de uma agroindústria em Marechal Thaumaturgo”. Por meio deste projeto queremos incentivar os pequenos produtores da região a cultivar árvores frutíferas para a produção de polpas de diversas frutas, tais como açaí, cupuaçu, maracujá, acerola, graviola, abacaxi, manga, goiaba, entre outras. Inicialmente, a produção de polpas deverá abastecer os mercados local e regional com polpas de frutas de qualidade.

Este empreendimento vai gerar postos de trabalho, tanto em nossa comunidade, como em todo o município de Marechal Thaumaturgo. A mão de obra local será capacitada sobre o funcionamento e a gestão de uma agroindústria. O projeto vai contribuir para o aumento da renda familiar de comunidades indígenas e não indígenas da região. Por meio dele, queremos também incentivar e fortalecer o associativismo e o cooperativismo, implantando um novo modelo de gestão participativa para toda a região do Alto Juruá.

O local de beneficiamento das polpas de frutas fica nas instalações do Centro Yorenka Ãtame e o início da produção está previsto para 2017.

Informações do Projeto

Nome Projeto Pontão de Cultura da Floresta – Centro de Cultura da Floresta

Categoria:  Arte e Cultura, Todos

 

O Pontão de Cultura da Floresta foi criado para incentivar o diálogo intercultural e a troca de experiências e saberes nas mais diversas áreas e entre os diversos grupos da sociedade. Instalado no Centro Yorenka Ãtame, ele surgiu de um acordo entre a APIWTXA, o Ministério da Cultura (MinC), o Governo do Estado do Acre e a Associação de Cultura e Meio Ambiente (ACMA).

O foco do Pontão de Cultura está na valorização, reconhecimento e fortalecimento cultural. Para isso, o espaço busca fomentar projetos artísticos, intercâmbios culturais e cursos de formação em gestão de projetos culturais e na área de políticas públicas.
A parceria beneficia diretamente comunidades indígenas e não indígenas da região da bacia do Alto Juruá, no Estado do Acre, e em todo o Brasil. O acordo entre a comunidade Ashaninka APIWTXA, o MinC, o Governo do Estado do Acre e a ACMA foi assinado pelo então ministro da Cultura, Juca Ferreira, em setembro de 2015.

Informações do Projeto

Nome Arte Ashaninka

Categoria: Arte e Cultura, Todos

 

Nossa arte espelha a nossa vida, o nosso pensar e modo de enxergar os mundos. Ela transporta consigo uma mensagem sobre a identidade de nosso povo, nossa luta, nossa causa e nossas intenções.
Desenhos geométricos adornam nossas roupas, objetos e pinturas faciais. Lutamos pela valorização e proteção das nossas pinturas, artefatos e toda a nossa cultura. Temos o cuidado contínuo de passar esses conhecimentos para as futuras gerações para não deixar que nossas tradições se percam, como já aconteceu com tantos outros povos.
Nosso povo tem uma experiência milenar na produção de artefatos, que se destacam pelos detalhes elaborados individualmente por homens e mulheres em nossas cusmas (vestimentas tradicionais), chapéus e outros objetos. Cada um desses desenhos tem um significado.
Os objetos produzidos pelas famílias de nossa comunidade são entregues à nossa Cooperativa (Hyperlink para a página da Cooperativa) e, de lá, seguem para o mercado. Eles têm sido um fator importante para a geração de renda no sistema tradicional de troca Ashaninka, que chamamos de “Ayõpare”. Desde cusmas masculinas e femininas, tipoias, pulseiras, colares, enfeites de cabelo, brincos, miniaturas de gamelas e barcos, arcos e flechas, bolsas e até os chapéus tradicionais masculinos são produzidos segundo a tradição Ashaninka.
Essa produção supre a nossa demanda e, sobretudo, apoia projetos da comunidade, à qual é repassada a renda obtida com a venda do artesanato para que seja investida em ações de interesse dos próprios moradores.

Informações do Projeto
Nome Ações do plano de gestão territorial
Categoria Manejo de Fauna

Quando começamos a lutar pelos nossos direitos à nossa terra nos anos 80, também passamos a proteger a biodiversidades e o uso sustentável dos recursos naturais. A caça e os peixes estavam se tornando escassos tornando difícil para as famílias devido às invasões que aconteciam pelos não índios.

Já antes da demarcação da nossa terra, em 1992, começamos a investir cada vez mais na proteção e manejo sustentável dos recursos naturais, para garantir uma qualidade de vida melhor para nosso povo. Neste tempo já discutíamos a necessidade de um plano sistematizado de manejo de flora e fauna. Foi aí que criamos um plano de manejo voltado para a proteção dos diversos recursos existentes no nosso território e uso sustentável com apoio da CPI-AC. Dentro deste processo, analisamos quais recursos se encontravam ameaçados e o que tínhamos que fazer para recuperá-los. Discutimos quais mudanças teríamos que fazer internamente, dentro da nossa terra, para garantir a recuperação dos recursos, como a caça, a pesca, a madeira. Buscamos informações de fora, encontramos parceiros para nos orientar, a partir da nossa decisão do que era necessário recuperar no nosso território.

Com a ajuda da CPI-AC, realizamos o etnomapeamento, que é um orientador que mostra as áreas de nosso território onde poderíamos caçar e pescar, como também as áreas reservadas para a reprodução da fauna chamada áreas de refúgio de animais. Todos trabalhos realizados pela comunidade anteriormente foi sistematizado no plano de manejo e etnomapeamento. Como podem ver que em 1990, criamos a primeira área de refúgio em nossa terra, entre os rios Revoltoso e Amoninha e em 1995, com TI.

Demarcada reposicionamos a aldeia e criamos novas áreas de refúgio.
Em todo nosso trabalho, quando observamos que alguma espécie se encontra ameaçada, nós registramos, discutimos e trabalhamos a recuperação. Por exemplo, nós temos algumas espécies que se encontram com uma população baixa em nosso território, como o mutum, o macaco preto e o macaco barrigudo, estamos trabalhando para proteção e recuperação destas espécies internamente e trabalhamos também com as comunidades vizinhas, para que estas lutem pela proteção.

Em nosso Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) decidimos o seguinte:

Na área da caça:
1 – Cachorro caçador: Fica proibido o uso de cachorro (paulista, americano, etc.) para a caça de animais grandes (veado, porquinho, queixada, anta) em áreas mais distantes. O cachorro que não é de raça caçadora pode caçar os animais pequenos que atacam o roçado, como a paca, a capivara, a cotia, etc. Cada família pode criar apenas dois cachorros.
2 – Caçada: Identificar a época de reprodução de cada animal e caçar menos no tempo de filhotes.
3 – Capivara e jacaré: Há abundância dessas espécies na terra indígena, mas a carne desses animais não é consumida por nós, Ashaninka. Portanto, devemos usar a carne do jacaré e da capivara nos cursos e eventos que acontecem na aldeia Apiwtxa. Como, em alguns casos, a capivara traz problemas comendo as roças de praia, podemos pensar em um plano de exploração e venda da carne desse animal junto ao IBAMA.

Na área da pesca:
1 – Oaca: Controlar o plantio de oaca. Sugerimos no máximo quatro pés por roçado.
2 – Pesca com bicheiro: Pescar com bicheiro durante um ano e deixar de pescar nos próximos dois anos. No ano de pesca com bicheiro, combinar com a comunidade quais serão os remansos utilizados para mergulho.
3 – Pesca com tarrafa: Não cobrir a pauzada com a tarrafa para fazer bateção.
4 – Bodo: Não pegar bodo no tempo em que eles estiverem ovados.
5 – Construção de açude: Serão construídos em mutirão para cada família. Cada uma colocará os peixes que tem vontade de criar. Haverá um açude grande, comunitário, para a criação de tracajá, tartarugas e peixes.
6 – Piracema: Atualmente, os pescadores e a população do entorno não deixam mais subir piracema; fecham o rio com malhadeira e pegam todos os tipos de peixe. Representantes da comunidade devem participar e exigir a fiscalização na época da piracema no município de Marechal Thaumaturgo e no baixo rio Amônia (que fica fora da Terra Indígena).
7 – lagos: Não limpar a beira e os balseiros dos lagos que são usados para pescar.

Através deste trabalho, conseguimos recuperar os peixes que estavam se acabando no rio e começamos a trazer de volta a floresta e as espécies que estavam se acabando. E para fortalecer ainda mais este trabalho, criamos um plano para impedir a entrada dos caçadores e dos madeireiros que exploravam a nossa terra.
Hoje, alcançamos um alto nível de conforto, tranquilidade, liberdade e autonomia em nossa comunidade. Mesmo assim, continuamos lutando para manter esta qualidade de vida. Através de nossa luta, reconhecemos a importância de se ter um território, de saber a importância dele, dos rios com as águas limpas, com os peixes, com as florestas, com as espécies da fauna e flora sendo cuidadas.

Informações do Projeto

Nome Manejo de Tracajá

Categoria Manejo de Fauna

 

A nossa terra era cheia de tracajás antes da chegada dos não indígenas no rio Amônia. O tracajá (com o nome científico de Podocnemis unifilis) é um animal muito apreciado não só por nós, Ashaninka, mas também por outros indígenas e não indígenas na região do Alto Juruá.

Os mais velhos contam que quando os não indígenas chegaram ao rio Amônia, chegavam a encher suas canoas de tracajás e também os ovos para comercializarem nas cidades. No tempo do verão, quando as praias dos rios saiam, eles não índios levavam o tanto que queriam, sem nenhum questionamento ou proibição legal, porque se diziam dono da região. Como o tracajá era produto de troca no mercado local, na época muitos Ashaninka também trocavam por ferramentas além do consumo interno.

Isto aconteceu principalmente entre os anos de 1960 e 1980, com o aumento de famílias de não indígenas por conta da exploração madeireira no rio Amônia. Estas ações exploradoras praticamente terminou a população de tracajás, e no final dos anos 80, esta espécie se encontrava altamente ameaçada.

Por isso, em 1988 iniciamos nosso trabalho de manejo de tracajás para podermos recuperar esta espécie em nossa terra, contando com a participação de toda a comunidade. Até 1995, fazíamos somente a proteção, mas a população do tracajá não aumentava pelo baixo numero de matriz. A partir deste momento com apoio técnico da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC) e FUNBIU, criamos praias de desova para os tracajás e açudes em nossa comunidade, onde a população de tracajás pudesse se recuperar.

No ano de 2000 já pudemos realizar a primeira coleta de ovos. Para isso, reservamos a praia do Tabuleiro, onde os tracajás podiam seguramente depositar seus ovos, sem que ninguém os retirasse antes do tempo. E em 2001 começamos a construir os açudes em nossa comunidade e a usar técnicas mais avançadas de manejo.

Em 2002, durante os cursos de formação de agentes agroflorestais indígenas, realizados na Comissão Pró-Índio do Acre, pudemos contribuir e trocar experiências com os demais agentes agroflorestais indígenas no tema “manejo e criação de quelônios”. Nosso trabalho na área de criação de tracajás, nos permitiu dar importante apoio técnico à construção e fortalecimento do currículo da formação de agentes agroflorestais indígenas do Estado do Acre.

A criação de tracajás em nossa comunidade foi e ainda é um projeto pioneiro e de extrema importância para o repovoamento desta espécie nos rios da região. Ao longo de todo esse trabalho conseguimos recuperar em torno de 5000 tracajás, que vivem em nossos açudes e repovoam o rio Amônia, igarapés e lagos de nosso território.

Neste momento, os primeiros tracajás já estão botando ovos, agora requer uma nova fase que é fazer cercas adequadas e praias para postura dos ovos, sem perder de vista que as etapas anteriores devem continuar sendo feitas.

Informações do Projeto

Nome Articulação transfronteiriça Brasil-Peru

Categoria Arte e Cultura, Organização Comunitária, Proteção Territorial

 

Desde o final dos anos 90, nós Ashaninka do Rio Amônia, nos unimos a parceiros indígenas e não indígenas para lutar contra vários problemas que ocorrem na linha de fronteira entre o Brasil e Peru. Nós, povos indígenas que habitam a região transfronteiriça, somos confrontados há décadas com a exploração ilegal de madeira, a abertura de estradas, a exploração de minério, petróleo e gás nas cabeceiras dos nossos rios, como também com a presença do narcotráfico.

Para conseguirmos combater estes problemas, buscamos trabalhar em conjunto com organizações governamentais e não governamentais de ambos os países e as comunidades Ashaninka peruanas, que na maioria das vezes se encontram fragilizadas pela presença exploradora e intimadora de empresas madeireiras e do narcotráfico. Este trabalho em conjunto com as comunidades Ashaninka no Peru ajudam a fortalecer estas comunidades, mostrando-lhes alternativas de desenvolvimento que protegem o modo de vida e a essência da cultura Ashaninka. A parceria com a CPI-AC foi fundamental para mobilizar outras ongs nesta pauta de fronteira, levando as informações e sistematizando dos dados.

Desde o ano 2004 e 2005, quando vários conflitos ocorreram devido à presença das empresas madeireiras no nosso território e em toda a linha de fronteira, intensificamos o contato com várias comunidades Ashaninka da região do Ucayali, entre elas, as comunidades de Sawawo, Saweto e Shawaya, para mencionar só algumas. Foi a partir deste momento que as várias comunidades perceberam qual era o cenário futuro e começaram se mobilizar para se proteger. Já em 2005 recebemos pela primeira vez um grupo de Ashaninka dos rios Ene, Tambo e Alto Perene em nossa comunidade.

Em 2015 expandimos o contato com outras comunidades Ashaninka da Selva Central. Isto ocorreu após uma viagem em julho de 2015, quando um grupo de líderes Ashaninka da Apiwtxa visitou várias comunidades da Selva Central e vários sítios sagrados do povo Ashaninka. Durante esta viagem, após conversar com várias organizações e representantes Ashaninka peruanos, fomos chamados para apoiar a organização do Primeiro Congresso Binacional do Povo Ashaninka, que aconteceu em setembro de 2015 em Pucallpa, no Peru. Mais de 120 representantes Ashaninka de diversas comunidades peruanas participaram deste importante encontro para debater o fortalecimento das comunidades Ashaninka peruanas e brasileiras.

No momento, estamos trabalhando em um filme sobre os lugares sagrados do povo Ashaninka no Peru, e seguimos nas articulações para realização do próximo Congresso Binacional do povo Ashaninka do Brasil e Peru. Além disso, estamos apoiando diretamente as Comunidades Nativas Sawawo E Shawaya, que fazem fronteira com a nossa Terra Indígena, em parceria com a ONG Comissão Pró Índio do Acre e Rainforest Foundation Norway. Trate-se de um processo de capacitação para a gestão territorial e ambiental e fortalecimento organizacional com a finalidade de compartilharmos nossas experiências e assegurarmos a proteção de nossos territórios.

Este é um trabalho muito importante para nós, Ashaninka da Apiwtxa, que buscamos proteger, fortalecer, reconhecer e valorizar a cultura do nosso povo. Com a nossa união é que iremos garantir a continuidade de nosso povo, nosso território, nossa cultura, nossa espiritualidade e todos os valores que representam a essência da nossa vida. Muitos outros encontros e debates virão para contribuir para o fortalecimento e continuidade do nosso povo, nossa cultura e nossa sabedoria.